quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Versos pobres

Queria eu ter a sutileza de um poeta

Que um dia soube extrair versos de um homem comendo em uma lata de lixo

A doce ironia de um versejador

Que se abaixou na hora do soco

Mas não

Meu versos descem como chumbo frio caindo no chão

Duros, irritantes

Descem crus pela garganta e incomoda sua má disposição

Talvez se escrevesse com pena molhada na tinta

Talvez se escrevesse com lápis e papel

Mas os versos saem insossos deste martelar incessante em teclas de plástico e metal


 

E sem ter sutileza, leveza ou ironia

Ao ver que pobre no mundo é quem ganha menos de 1 dolar e 25 cents por dia

Ao ver em linguagem fria de números que os pobres estão diminuindo

Ao ver esta mentira contada de forma tão fria

Apenas sobra a desilusão, a decepção

De em versos apenas saber dizer

Que no coração bate o ódio e a determinação


 

sábado, 23 de agosto de 2008

Choveu

Chove hoje de manha
e eu quase não amanheci
só um pouco do nesgar dos olhos
mostrava uma manhã chuvosa
preguiçosamente, virei de lado
e esperei chegar o amor

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Contando

Criança ainda, eu contava estrelass

E muito antes de Star Treck eu viajava por sois e planetas

Em espaçonaves mais rápidas que a luz

A força do pensamento

Percorrendo galáxias inimagináveis

Eu contava as estrelas

E também contava a elas

As minhas tritezas e alegrias

Sonhos, amores e decepções

Em noites repletas de imaginação

Depois, um dia, surpreso, descobri que Bilac ouvia estrelas

Mas não as contava

E contei números e dinheiro

Virei contador

Medindo balanços e lucros no escritório do meu pai

E contando a noite os sonhos para as estrelas

E em números traduzi as medidas da Terra

Contando seus números e sua ciência

Contei e calculei com Newton e Einstein

Equações e formulas desciam velozes pela minha boca em forma de números

Eu contava mais alto

Contava as formulas de Einstein e as equações de onda

Contava ainda

Sonhos e amores

As estrelas doiradas que iluminavam o céu negro

Contando segui a vida

E contando estrelas e ondas cheguei a revolução

E como foi isso eu não conto não

Eu agora ouvia estrelas junto com Bilac

E sonhava

Conto agora pessoas e sonhos

Conto números frio da economia e vidas sofridas neste mundo cruel

Eu conto e sonho

E de ponto em ponto

Aumento um conto

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Enquanto ocorre a Olimpíada

Pelo menos nos jornais, nada de novo parece ocorrer. Os escândalos deram pouco o seu ar de graça, o noticiário policial diminuiu de tom e até as pesquisas eleitorais desapareceram. Tudo parado em nome do espírito olímpico?

Infelizmente, o mundo não é assim. O que move o mundo continua a ser a produção e o consumo de bens, a economia. E, neste aspecto, a crise continua a andar, desenrolando-se por baixo dos tapetes bem intencionados de banqueiros e industriais.

Um analista americano, analisando os dados, concluiu acertadamente que a produção industrial americana continuava a crescer, embora em ritmo mais lento que no ano passado. Mas o emprego e os salários diminuíram. Conclusão: a crise está vindo, mas quem está pagando por ela é justamente a classe operária. Sob este aspecto, nem Obama nem MaCain tem proposta ou solução alguma, fingem simplesmente que tal fato não acontece, enquanto se ocupam em xingamentos diversos.

A verdade é que a alta do preço do petróleo e de outros minerais, aliada a baixa do valor do dólar, cobrou o seu preço. A guerra do Iraque começou finalmente a ter algum prejuízo a menos, com o petróleo tendo dobrado de preço e a produção ter finalmente se estabilizado nos valores existentes imediatamente antes da guerra. Este novo fôlego permitiu que o dólar começasse a recuperar-se frente às outras moedas. Mas o fôlego é curto, e tudo o que se viu até agora é que o preço do petróleo diminuiu um pouco, provavelmente porque o pico da especulação já passou, mas os preços de produção – Iraque, poços cada vez em águas mais profundas – não diminuíram e o valor não vai diminuir, não vai voltar aos preços de antes da crise.

No Brasil, a situação caminha para que a crise também seja sentida. Os valores de remessa de lucro para o exterior e de retirada do capital especulativo da bolsa atingiram o seu pico nos últimos seis meses. A Bovespa, como todas as bolsas do mundo, caiu de valor, inclusive empresas que tiveram os seus ativos valorizados, como Petrobras e Vale do Rio Doce (produção de minerais). Apesar da alta de juros, continua aumentando o credito, na esteira da baixa de valor dos produtos industriais, enquanto o preço de moradia, de transporte e principalmente de comida continua a subir. Como se vê, não estamos em um caso clássico de "inflação", mas de mudança dos valores relativos das diferentes mercadorias. Uma mercadoria, em particular, está perdendo valor: a força de trabalho. Como resultado geral da situação descrita anteriormente, morar, transportar-se, comer, ficou mais caro. E isto atinge pesadamente a classe operária, notadamente os seus segmentos mais pobres.

O resultado já começa a se ver: as greves aumentam. O governo Lula, rescaldado, agüentou algumas greves de servidores, mas conseguiu fazer acordos com a maioria, abrindo caminho para mais desqualificação no serviço público em troca de aumentos escalonados e de acordos nos quais as entidades sindicais se comprometem a defender "melhorias no atendimento ao publico, melhorias no desempenho dos servidores". Sim, o governo garantiu sua tranqüilidade monetanea. No setor privado, as grandes categorias ainda aguardam as negociações salariais, particularmente os metalúrgicos. E a grande panela de pressão prepara-se para estourar, apesar de todos os furos que patrões e governo tentam colocar impedindo a força da classe cada vez mais oprimida de se manifestar.