Sonhei com o dia em que montei no cavalo e me juntei a Pancho Villa
E tal como o Coronel Macondo
Fiz 99 revoluções e perdi todas
Voltando ao inicio do século dezenove
A minha cabeça, dolorida, ver ressoar os versos
"que tem por monumento as pedras pisadas dos cais"
Passa por minha cabeça delirante
Sonhos empedreados nevoentos de monstros de ferro fundido e aço
Canhões ribombando e um velho soturno carregando peixes pescados em canoa pequena
As masmorras fedorentas de homens mortos de cal e falta de ar
As homenagens tentadas e nunca terminadas
Os convites oficiais para entrevistas e homenagens e a perigrinação em hotéis que não aceitam negros
E o homem, triste, encurvados, desdobrado em mil imagens sem se dobrar jamais
E as imagens de tantos que se dobram e desdobram na lide do dia a dia e que por mim perdidos
Acabados
Arrasados
Nascidos de novo em novos homens mulheres tão diferentes que hoje não são mais gente
São fantasmas
Igual ao almirante negro que só é lembrado nas pedras dos cais
Confundem-se em minha cabeça todos os cafés da manhã
Mesas, crianças, pessoas diferentes em cada uma das mesas e dias que se perderam
Minha amiga, agitada, encobrindo todos a sua volta
Apressada, não conseguia um momento siquer de descanso, perdida em sonhos e devaneios
Tentando chegar aonde ninguém chegou e só chegou no medíocre lugar comum dos burocratas que um dia venderam seus sonhos em troca de carros, casa, vestidos
Ela, em minha casa, parava e falava da vida como se sua vida fosse duas
A presidente das assembléias e agitações, a mãe, mulher, criança perdida sem rumo
Minha princesa, sorrindo, preocupada com o suco sem saber se preparei direito para as crianças
As vezes trazia o café na cama amor e dor juntos sem que eu percebesse a distancia que se criava e eu não via mais perdido que todas elas
Minha princesa tão cheia de vida, de sonhos, festas, sorrindo, escrevendo, lendo
Me arrastando para a vida quando eu só queria o quieto do meu canto
Relembrando o passado
Descobri, assustado, que sou fantasma de mim mesmo
Eu olho as pessoas que passaram por mim
Olho aquelas que se afastaram e as que ainda gosto
E me parecem tão distantes, tão irreais
Como todo doido que pensa que doidos são os outros
Eu, fantasma, pensava que os outros tinham se tornado fantasmas
Ilusão.
Eu, perdido de meu passado, deslocado e desenraizado
Tornei-me em fantasma de mim mesmo
É difícil explicar este caminho
Caminho que percorri quando minha princesa marinha me abandonou
Caminho feito de dores e de pedras
De pedras que existem no meio de todo caminho
Primeiro eu chorei
E me apaixonei por um fantasma que surgiu de meu passado distante
E ela era distante e era tão próxima
E era tão real quanto reais são os fantasmas do passado
E eu, olhando fantasmas, não via a flor real que de mim cuidava
Que velava pelo meu sonho, pelos meus choros e até pelos amores fantasmagóricos
Sem saber, o fantasma era eu, perdido em cemitérios feitos de dados e de sorte
Sorteando amores e namoradas, trepadas, choros, paixões e beijos
Buscando em todas a princesa perdida
Buscando em mim o passado irreal e onírico que só almas perdidas podem buscar
Briguei milhares de vezes com minha flor
Que mais precisava de cuidados que eu mesmo
Que mais precisava ser enfermeira de si que de mim
E nos afastamos, nos amamos, nos chegamos e nos matamos
Fantasmas, só fantasmas, perdidas para sempre em brumas de um passado longinquoperto
Eu, ainda montado no cavalo, general nomeado pelo dedo de Villa,
Revolucionário ginete de novastecnologiaspalavras, ligado a classe operária
Desdobrava-me em reuniõesassembleiasencontrosmanifestações
Numa reunião em eu não devia ir a encontrei.
Passei a reunião a falar com ela e nem lembrava porque lá fui
Ela era uma fada, Risonha e triste ao mesmo tempo
Cujos feitiços me transformaram em príncipe e em carrasco
Fada boa e bruxa má numa só pessoa
Hoje sorridente, amanhã quebrando copos
Hoje cantando, amanha quebrada na cama
A sua cabeça doía e ela se transformava;
Seus filhos eram anjos e demônios
E ela os amava e odiava na mesma proporção
E queria mata-los e salva-los
E me amava e me odiava
E não sabia amar nem odiar
Perdida, suas feitiçarias me encantavam
E sua varinha de condão me afastava
Chorando nas pedras do caminho, pedras do caismonumento do almirante negro
Montado no cavalo que Villa me presenteou, eu sonhava
Sonhos que um dia foram realidade, sonhos que sonhamos juntos e hoje a elas nada falam
Sonhos de uma família feliz que tive em dias de amor e cantos
Sonhos empedrados em apartamentos que eu sonhava só
Sonhos que busquei em cada beijo, em cada olhar, em cada lagrima
Em cada briga de criança, em cada momento que eu olhava procurando uma ponte
Ponte que unia o nada do meu sonhamar com a alegriatriste do seu cantar
Sonhos de uma cidadeperdidalteradacaida em um maranhão mareado por lagrimas
Daqueles que cairamorreram como morreu o almirante
E ela via índios camponeses e não enxergava o amor ao seu lado
Sobraram não os sonhos mas os fantasmas que vagam errantes ao meu lado
Enquanto suas sombras seguem pelo mundo sombras do que foram e hoje não mais são
Dei de visitar cemitérios
Cemitérios de idéias, de canções e de pessoas
Pessoas que tinham morrido e não sabiam
Pessoas que viviam como se mortas estivessem
E convivia com pessoas que morreram
E tentavam viver sendo mortasvivasvampiras de si mesmas
E sugavam mais o seu próprio sangue que o meu
Eu olhava-as, espantado e seguia em frente
Andando por cemitérios enquanto pensava andar em lugares alegres
Nos afastamos eu e ela
Ela voltou ao planaltocemitério
Eu, fantasma translúcido a olho como fantasma de um cemitério distante
O sol passa por mim e não deixa sombras
Todas elas perdidas em cemitérios distantes
Devaneio
Um dia escrevi que o quarto onde eu estava me enchia de tristezas
E o que me enchia de tristezaa era a dor da perda
Perdas que se transformaram em fantassmas
Antes ao ver rosililia eu queria morrer
Eu desejavamavasonhava sonhos perdidos ilusões
Hoje os fantasmas delas as vezes povoam minhas noites
Mas ouvir seus nomes ou suas vozes
São coisas esquecidas que já não tocam as fibras do meu coração
E as vezes choro pelo canto não por fantasmas perdidos
Mas por sentir como perda a perda do sentiramar
Choro não sentir dor, choro não sentir a ausência
Choro por não querer mais o que antes me era tão caro
E eu, revolucionário, que um dia cavalgou junto com Pancho Villa
que navegou junto com o Almirante Negro
e se juntou a todas as revoluções feitas em Macondo
Agora não posso apear
Sou o fantasma de Macbeth, empunhando a espada flamejante
Sou São Jorge caçando a burguesia-dragão