Segundo dia de Janeiro
O ano começa em primeiro de Janeiro. Mas Janeiro mesmo não começa no dia 1, começa sempre no dia 2. As vezes, quando estou de férias, Janeiro nem começa, nem sinto passar. Agora, quando se trabalha, após as festas do final de ano, se volta no dia 2. E aqui estamos nós todos que estamos trabalhando, labutando, no dia 2.
Olho as noticias com preguiça, que os alimentos subiram mais que a inflação, que apesar da “autosuficiência” em petróleo importamos mais que exportamos, num sol de quase dezembro (sim, porque janeiro é quase dezembro, porque o depois é também quase, apenas chegou um pouco depois, embora o quase dê idéia de que estamos quase chegando lá mas também pode ser que chegamos um pouco depois e Janeiro chegou um pouco depois de dezembro embora Janeiro seja mais um mês novo que um mês como novembro que, este sim, é quase dezembro; Janeiro é mais quase fevereiro, quase carnaval, quase...)
Sim, o Brasil cresceu, a produção cresceu, os salários segundo o governo cresceram mais que a inflação e para as famílias de trabalhadores cresceu mais o gasto com a comida que cresceu o salário e ai a inflação diz uma coisa e o supermercado e o mercado e a vendinha da esquina e a padaria dizem outra: gasta-se mais com comida do que ganhei com o aumento de salário. E esta verdade tão simples insinua-se pelas notícias de jornal, não tão direta, não tão clara, que uma notícia vem um dia a outra vem outro dia e não se vê as duas juntas não, se vê uma num dia e outro noutro dia, separadas, que não é pra ninguém criticar o presidente que tão boas coisas como bolsa família e outras esmolas faz pelo povo pobre que, claro, continua pobre como sempre foi.
Sigo. Olho o sol que esquenta neste janeiro como a muito não esquentava neste Rio, queimando arvores e pessoas, brilhando sob o telhado de zinco do Ministério da Fazenda como brilhava na minha infância em construções precárias que se espalhavam pela cidade de Taguatinga em Brasília e também em outras cidades satélites que era todo o meu mundo enquanto o mundo não vinha. O ar condicionado trabalha a pleno vapor, esfriando um pouco a sala onde todos estamos e quase queimando quem passa do lado de fora e eu lembrando da segunda lei da termodinâmica e tendo certeza que cada ar condicionado esfria um pouco aqui dentro e esquenta muito mais o mundo inteiro porque toda energia ao se transformar gera um pouco de calor e calor é tudo que se gera hoje em janeiro.
E encalorados e esquentados pelos ares condicionados e principalmente pelo sol que brilha como nunca neste quase dezembro do Rio de Janeiro em Janeiro seguimos todos com os alimentos esquentando a inflação e esfriando os bolsos dos trabalhadores que seguem cansados de sol e pouca comida que escasseia com os altos preços enquanto existe credito para tudo não tem jeito de ter credito para comida porque comida tem que se ter todo dia e TV pode se comprar uma hoje e outra daqui a muitos anos e descobrir que o que pagou hoje está baixando de preço que esses eletrônicos todos estão caindo de preço e cai o dólar só não cai o preço da comida e das casas que o aluguel também aumenta e nem se sabe porque.
Sigo. Constrangido. Esperando o quase dezembro e o beijo moreno da moça que passa enquanto passam os dias quentes e as noites quentes também e de beijos e abraços quentes no quente janeiro se segue o dia de trabalhadores e jovens que se sobra a doce ilusão de que janeiro não se faz nada enquanto tantos trabalham e labutam também tem que se amar e beijar e abraçar que só de labuta e pão não se vive, precisa-se de amor e de ilusão.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
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