domingo, 23 de dezembro de 2007

Carta a mulher amada

Bom Dia Amor

Como é que você vai? E as crianças? Desistiu de fazer política? ........ E a .....? Continua muito irônica? Melhorou daquele probleminha de saúde ou ainda sente? E ........? Insolente como sempre?

O .........e a ..........estão indo muito bem. O ........está atolado até o fundo do coração naquele seu projeto de curso, preparando-se para passar para a pós-graduação. Não digo que não sinto falta dele porque sinto. Imagina só, minha filhinha segue, em determinada medida, os passos do pai. Me sinto orgulhoso e temeroso. Sei lá. Acho que você deve sentir isso em relação a........, só que ela está ai ao teu lado, em determinada forma você não pensa mas controla o que ela faz. A ........está longe. E perto. O coração sente.

Desde ontem que estou com saudades da minha avó. Fica voltando em minha mente as cartas que recebia dela, longas, escritas com uma caneta mais roxa que azul. Cartas simples, falando do dia a dia, do doce de figo, da saudade, perguntando pela saúde dos outros. Alguns dizem que foi o e-mail que matou as cartas. Sei não. Pra mim foi o telefone. Quando instalaram o bicho lá em casa, quando a gente consegui falar com a Campos Altos, as cartas começaram a rarear. Mais fácil falar. E o bichão preto, ali do lado, sempre que se queria era só pegar e chamar a telefonista. Depois veio a ligação direta, sem telefonista. Mais simples, mais fácil. Matou as cartas.

Ai, agora, volto a escrever cartas. Sintoma de morte? Não acho. Acho que meu renascer – você deve ter visto a poesia que fala disso – me levou por caminhos que nem eu suspeitei que existiam. Ligou coisas iligáveis. O novo e o velho. Meu coração disparou por caminhos que não percorri, subiu montes que não devia ter subido e bronzeou-se no sol da manhã.

Ontem, ao chegar em casa vindo de SP soprava uma brisa ligeira. Trazia o cheiro do mar, o primeiro cheiro do mar de quando pela primeira vez cheguei ao Rio. Não digo que não senti tua falta. Sabes que sinto. Mas é um sentir doce, sem mágoa, mais para esperar que para doer.

As visitas da minha avó em minha casa eram diferentes. Trazia um vento novo, um que de doçura que nunca mais tive. Ela nunca veio ao Rio, embora eu tivesse mudado quando ela ainda era viva. Não consegui ir ao seu enterro. Chorei como nunca tinha chorado antes, sempre pensei que minha avó viveria para sempre. As lagrimas descem pelo meu rosto quando escrevo isto e não consigo evitar. Minha mãe ficou de mal comigo por não ir ao enterro mas doía demais. Depois, enterrei outros. A dama branca tem amores estranhos. Levou meu tio Cornelio, minha tia Sinesia, meu tio Osmar, meu pai, meu avô (quando meu pai ainda era vivo), minha outra avó, meu outro avô. Sobra minha mãe. Meus irmãos. Segue a vida e sigo eu. Renascido, embrutecido e terno.

Os amores hoje passam sem muitas dores. É isso que significa ter o coração duro, renascido. Os sonhos aumentam a medida que envelheço. Perco o juízo que tive, se é que tive, em algum momento da juventude.

..... As serras de Petropolis continuam lindas. Existe a tentação. ...as serras estão lá, está lá o barzinho, o hotel, todas as coisas boas que valem a pena ser vividas. Está lá o teatro onde assistimos ......... Estão lá os bosques e as casas que você sonhou um dia em viver. ......... A paciência continua pequena, você sabe, mas eu a tenho suficiente .........

Beijos ........

Luiz

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